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Tabus, Tretas e Troças

O Nordeste exige respeito e o futebol não é espaço para xenofobia

Manifestação raivosa de jogador do Bahia e reação discriminatória de torcedores paranaenses contra atletas do Vitória reabre uma ferida nacional

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Sílvio Tudela •

- há XX semanas
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Dos ataques ao Nordeste após o resultado das eleições aos insultos contra jogadores do Vitória em Curitiba, o preconceito regional reaparece nas redes sociais e nos estádios. O futebol brasileiro acaba de oferecer mais dois exemplos de uma velha ferida nacional. Em poucos dias, episódios envolvendo Bahia e Vitória, os dois representantes baianos na Série A, trouxeram novamente à tona uma prática que insiste em sobreviver nos estádios, nas redes sociais e no imaginário de parte da sociedade: a xenofobia contra nordestinos.


					O Nordeste exige respeito e o futebol não é espaço para xenofobia
Foto: IA

O primeiro caso envolveu o atacante Willian José, do Bahia, que compartilhou em suas redes sociais um vídeo no qual um influenciador atacava o Nordeste após o resultado das eleições presidenciais. O conteúdo, além de associar a população da região à dependência de benefícios públicos, chegou a classificar o Nordeste como um “câncer” do país.

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Foto: Reprodução / Redes sociais

A repercussão provocou críticas de torcedores, manifestação institucional do clube e a decisão de deixar o jogador fora da partida contra o São Paulo, para que refletisse sobre o episódio.

Posteriormente, Willian José pediu desculpas, reconheceu que compartilhar o conteúdo foi um erro e afirmou ter orgulho de suas origens alagoanas. Também ressaltou que suas convicções políticas não justificam qualquer forma de discriminação. O pedido de desculpas é importante, mas não apaga a gravidade do conteúdo que foi compartilhado. O Ministério Público da Bahia também passou a apurar o caso.


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Bahia tomou decisão sobre Willian José após vídeo detonando o Nordeste e críticas da torcida. Foto: Reprodução/Instagram (@therafao)

Poucos dias depois, a xenofobia voltou a aparecer dentro de um estádio. Durante a partida entre Coritiba e Vitória, no Couto Pereira, em Curitiba, torcedores paranaenses dirigiram insultos aos jogadores rubro-negros que estavam no banco de reservas, chamando-os insistentemente de “baianos preguiçosos”. A manifestação foi relatada durante a transmissão da partida e imediatamente condenada pelo comentarista, que cobrou atenção das autoridades presentes ao jogo. Ao tornar pública a discriminação, a xenofobia continuou solta nas redes sociais.

São episódios diferentes, com personagens, circunstâncias e responsabilidades distintas. Mas há um elemento que os aproxima: a tentativa de reduzir uma população inteira a estereótipos depreciativos, seja por sua origem geográfica, seja por suas escolhas políticas.

Eleições como pretexto para o preconceito

O resultado das urnas não criou a xenofobia. Apenas ofereceu um novo combustível para manifestações que já existiam. A associação entre o comportamento eleitoral do Nordeste e supostas características negativas de seus habitantes revela uma lógica perversa: transformar uma escolha democrática coletiva em justificativa para desqualificar milhões de pessoas.

O direito de discordar de um candidato, de um partido ou de um projeto político é parte essencial da democracia. O problema começa quando a divergência deixa de ser dirigida a ideias e passa a atingir a dignidade de quem pensa diferente. Mais grave ainda quando essa hostilidade se estende a todos os habitantes de uma região, como se milhões de brasileiros pudessem ser definidos por uma única decisão política.

Não existe contradição em ser nordestino e defender uma posição política diferente daquela predominante em seu estado ou município. Tampouco existe qualquer obrigação de concordância ideológica para que alguém seja respeitado. A democracia pressupõe justamente a convivência entre diferenças.

O que se viu nesses episódios, entretanto, foi a tentativa de transformar o Nordeste em uma espécie de culpado coletivo para quem ficou descontente com o que as urnas trouxeram. Como se a origem de uma pessoa pudesse determinar sua inteligência, seu caráter, sua disposição para o trabalho ou sua capacidade de compreender os desafios do país.

Discriminação não nasceu nas arquibancadas

Seria um erro tratar essas manifestações como simples excessos de torcedores ou episódios isolados de mau comportamento. A xenofobia regional tem raízes históricas e culturais muito mais profundas. O Nordeste foi frequentemente representado, ao longo da formação da identidade nacional, por imagens de atraso, pobreza, dependência e inferioridade. Estereótipos que ignoram a diversidade de seus nove estados, sua história de prosperidade e resistência, sua produção cultural, sua contribuição econômica e a complexidade de sua população.

O historiador Durval Muniz de Albuquerque Júnior, em “A invenção do Nordeste e outras artes”, demonstra como a própria ideia da região foi historicamente construída por discursos, imagens e representações que acabaram cristalizando uma identidade regional frequentemente associada à seca, à miséria e ao atraso. Não se trata de negar problemas sociais reais, mas de questionar a transformação dessas condições em características supostamente naturais de um povo.

Na Sociologia, Norbert Elias e John Scotson oferecem outra chave de interpretação em “Os estabelecidos e os outsiders”. Ao estudar as relações entre grupos de uma comunidade inglesa, os autores identificaram como grupos que se consideram estabelecidos constroem imagens depreciativas daqueles que classificam como outsiders. A estigmatização funciona como instrumento de poder: um grupo reivindica superioridade e atribui ao outro características negativas para justificar a distância e a exclusão.

Essa lógica ajuda a compreender o preconceito regional no Brasil. O Nordeste é frequentemente colocado na posição de quem precisa provar sua capacidade, seu valor e seu direito de pertencimento o tempo todo. O problema não está apenas na ofensa explícita, mas também na repetição de uma hierarquia simbólica que apresenta determinadas regiões como referência de desenvolvimento e outras como sinônimo de atraso.

Pierre Bourdieu também ajuda a compreender esse mecanismo por meio do conceito de violência simbólica: formas de dominação que se reproduzem pela linguagem, pelos costumes e por classificações sociais que parecem naturais, embora carreguem relações de poder. Chamar nordestinos de preguiçosos, por exemplo, não é apenas uma provocação. É reproduzir um estigma histórico que tenta transformar desigualdades sociais e regionais em defeitos individuais ou coletivos.

Futebol como espelho de uma sociedade desigual

O ambiente esportivo não está imune a essas relações. Pelo contrário: a paixão clubística, a exposição pública e a sensação de pertencimento a um grupo podem criar condições para que preconceitos sejam reproduzidos sob o disfarce da rivalidade.

Um estudo publicado em 2024 na revista acadêmica “Esporte e Sociedade”, assinado por João Vítor Marques e Ana Carolina Vimieiro, identificou 30 episódios de xenofobia contra o Nordeste no futebol brasileiro entre 2014 e 2023. A pesquisa classificou as manifestações em seis categorias: generalizações e estereótipos, ataques ao futebol nordestino, ofensas ao Nordeste e à sua população, racismo e intolerância religiosa, insultos motivados por questões político-eleitorais e manifestações de repulsão. O levantamento é especialmente revelador porque demonstra que a discriminação não se limita a xingamentos isolados. Ela aparece em diferentes formas, desde a desqualificação da qualidade técnica de clubes da região até a tentativa de associar seus habitantes a uma suposta incapacidade de contribuir para o desenvolvimento nacional.

O estudo também ajuda a compreender por que os episódios recentes não podem ser tratados como uma novidade provocada pelo ambiente eleitoral. Em 2022, por exemplo, o Observatório da Discriminação Racial no Futebol registrou manifestações xenofóbicas relacionadas ao comportamento eleitoral de nordestinos, incluindo ataques de um atleta do Santa Cruz à população da região e ofensas dirigidas a um jogador do Atlético-MG nascido na Bahia. A repetição desses episódios demonstra que o futebol não inventa o preconceito, mas oferece visibilidade e, muitas vezes, uma falsa sensação de autorização para manifestá-lo.

Rivalidade não é salvo-conduto

É importante estabelecer uma diferença que deveria ser elementar: provocar o adversário por seu desempenho esportivo faz parte da cultura do futebol; atacar alguém por sua origem regional é discriminação. Uma coisa é brincar com a derrota de um clube, questionar a atuação de um jogador ou celebrar a vitória do próprio time. Outra, completamente diferente, é utilizar a identidade de uma população como instrumento de humilhação.

O torcedor do Coritiba tem todo o direito de comemorar seu sucesso sobre o Vitória. Pode criticar o adversário, provocar seus jogadores e defender as cores de seu clube. O que não pode é transformar a condição de baiano ou nordestino em motivo de inferiorização.

Da mesma forma, um atleta profissional tem liberdade para expressar suas convicções políticas. Mas ela não o isenta da responsabilidade de avaliar o conteúdo que compartilha, especialmente quando sua visibilidade pública pode ampliar a circulação de mensagens discriminatórias. O episódio envolvendo Willian José também chama atenção por uma contradição: o jogador é nordestino, nasceu em Alagoas e construiu parte de sua trajetória profissional representando um clube cuja história institucional está associada à valorização da identidade regional e à luta contra diferentes formas de exclusão. Sua origem, naturalmente, não o impede de ter opiniões próprias. Mas torna ainda mais evidente a necessidade de refletir sobre a reprodução de discursos que atingem a própria população da qual faz parte.

A resposta do Bahia, ao afirmar que o respeito à diversidade e à identidade nordestina é um princípio inegociável, foi importante. Assim como a cobrança pública feita durante a transmissão de Coritiba e Vitória. Mas manifestações institucionais precisam ser acompanhadas de ações concretas, protocolos de prevenção, identificação de responsáveis e medidas educativas.

O Nordeste não precisa pedir licença para pertencer ao Brasil

A Constituição Federal estabelece, entre os objetivos fundamentais da República, a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem ou quaisquer outras formas de discriminação. Também determina a redução das desigualdades sociais e regionais. Não é uma concessão, uma gentileza ou uma pauta circunstancial. É um compromisso constitucional.

O futebol, que tantas vezes se apresenta como expressão da identidade nacional, deveria ser um dos espaços mais preparados para acolher as diferenças. Afinal, clubes e seleções são construídos por atletas de origens, sotaques, histórias e culturas distintas. A diversidade não é um obstáculo à competição. É parte daquilo que torna o esporte universal.

Bahia e Vitória não precisam de tratamento especial por serem clubes nordestinos. Precisam do mesmo respeito e das mesmas condições de disputa asseguradas a qualquer instituição esportiva do país. Seus jogadores não devem ser julgados por sua origem, assim como seus torcedores não podem ser reduzidos a caricaturas regionais.

A xenofobia não se torna menos grave quando aparece em uma arquibancada, em uma publicação compartilhada por um atleta ou em uma provocação travestida de humor. E não pode ser relativizada porque o alvo pertence a uma região que votou majoritariamente de determinada maneira. O futebol brasileiro já convive com preconceitos demais para permitir que a discriminação regional seja tratada como folclore. A rivalidade precisa continuar produzindo emoção, debate e até provocações. Mas existe uma fronteira que não pode ser ultrapassada: a dignidade humana.

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