Ignorar um trauma não nos protege dele. Muito pelo contrário, ele se infiltra em nós como uma rachadura que parece pequena no começo, mas que, sem manutenção, compromete toda a estrutura. Podemos até evitar olhar para os danos, mas isso não impede que se agravem—apenas posterga o inevitável.

O mesmo acontece com tudo o que varremos para debaixo do tapete: sentimentos reprimidos, conflitos não resolvidos, dores históricas. Acreditamos que o tempo, por si só, tem o poder de curar. Mas o tempo não apaga feridas. Ele as sedimenta.
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Como psicólogo, vejo isso acontecer tanto no nível individual quanto no coletivo. No consultório, escuto histórias de dores ignoradas que voltam à superfície em forma de ansiedade, depressão, relacionamentos difíceis. E na sociedade, não é diferente. Racismo, preconceito, exclusão social, violência histórica—essas são marcas que muitos preferem fingir que não existem, como se o silêncio fosse capaz de apagar o passado. Mas o que não é encarado continua presente, moldando nossas vidas de maneiras que nem sempre percebemos.

A ideia de que “não foi comigo” pode trazer um alívio momentâneo, mas é uma ilusão perigosa. Aquilo que ignoramos não desaparece—ele apenas se acumula, esperando o momento certo para emergir. Só há uma maneira de seguir adiante sem carregar o peso dessas rachaduras: reconhecer sua existência e tomar para si a responsabilidade de reconstruir.
Se escolhemos negar nossas próprias feridas, como podemos esperar que uma sociedade inteira enfrente as suas? O que você tem escolhido não enxergar? Até quando?


Fabiano Lacerda
Fabiano Lacerda
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